Não espere pelo pior, já estamos lidando com ele

by - 23 março

Foto: ElPaís



O fôlego acabou. Estamos cansados de presenciar o trágico como algo rotineiro. Não consigo, nem posso, aceitar que milhares de mortes sejam tratadas com frieza em um país lançado à própria sorte. Estamos à deriva e sem direito ao mínimo sinal de salvação. Sem vacina, sem leitos, sem ar, é assim que estamos tentando sobreviver. Os profissionais do SUS entregam tudo que tem, mas heróis sozinhos não conseguem salvar toda a população. Eles precisam de mais, eles precisam de todos e de tudo. O difícil chegou em nossas casas como uma visita ruim, sem previsão de quando vai embora. Continuar respirando virou prova de fogo, mas estamos cansados de nos queimar. Famílias distantes há meses, trabalhadores vendo o dinheiro acabar e crianças tendo que superar aquilo que nem os adultos estão suportando. 


Em três meses 2021 já conseguiu ser pior que 2020. Permitimos que o COVID-19 encerrasse com a vida de tantos brasileiros. São mais de 600 mil mortes (me dói atualizar esse número). Não espere conhecer um desses nomes para reconhecer a seriedade da situação. Não é um debate sobre números e sim, um chamar atenção para vidas humanas encerradas por conta de um genocídio em terras brasileiras. Não existe meio termo nas circunstâncias atuais. Se não estamos evitando algo, estamos contribuindo para que ele aconteça e cresça. Se não temos medidas que corrijam o caos, somos a favor dele. Se não investimos em soluções, estamos sendo parte do problema. E você, de qual lado você vive? Tentando salvar vidas ou defendendo a morte?


Estamos beirando um precipício criado por quem não tem interesse em proteger a vida. Nosso Brasil, que já foi tratado como a terra de todos, assiste seus filhos tentando se salvar das quedas que podiam ser evitadas. Enquanto algumas mãos seguram outras em sinal de ajuda e empatia, muitas preferem se manter vazias. Pensar no outro nunca foi tão sobre cuidar de si mesmo, mas infelizmente, nem todo mundo pensa assim. O cansaço nos atingiu e mesmo muitos falando, poucos se mostram comprometido em escutar. Será que estamos gritando baixo ou foi o Brasil que perdeu a capacidade de ouvir?

Escrevo para tentar não me sufocar com as palavras guardadas e nem com o sentimento de decepção. Se perguntar como tanta gente não sente empatia por seus próximos, é sofrer com a falta de resposta para tamanha frieza e ausência de amor. Se mais de duas mil mortes por dia não te faz sofrer, tenho medo de saber que tipo de pessoa você é. Não existe olhar para tantas mortes e não chamar isso de genocídio. Não espere a dor ser com alguém da sua família para só assim, você perceber a calamidade do que estamos vivendo aqui e agora. Nunca foi tão assustador e doloroso viver no Brasil. No passado, ser brasileiro era sinal de alegria, hoje o mundo nos olha com pena e sem entender a falta de sensibilidade do nosso governo.


Não sei como vamos superar a dor e solucionar nosso caos, mas o velho lema não pode ser esquecido: "sou brasileiro e não desisto nunca". Por enquanto só podemos fazer a nossa parte: evitar aglomeração, utilizar máscara e higienizar as mãos. Mas precisamos de mais e temos que exigir tudo ao governo. É sobre comprar vacinas, apresentar reforços aos hospitais públicos, dar suporte aos mais pobres e punir quem coloca em risco a saúde dos outros. Não espere pelo pior, já estamos vivendo nele. Chega! O Brasil precisa voltar a respirar sem medo do ar acabar.

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